martins em pauta

domingo, 28 de setembro de 2014

A eterna e monótona novidade

Domingo - 28/09/2014 




Por François Silvestre

Foi assim que Euclides da Cunha fotografou a seca. Eterna porque independe da ação humana, fenômeno natural com registro no passado, atestado no presente e previsível no futuro. Monótona porque vem em ciclos, repetidamente; de fácil constatação. E novidade por conta da incompetência gerencial do poder político, que faz da seca uma surpresa a cada ano.

Em casos mais graves, nem é incompetência. É cumplicidade política, onde a seca serve para produzir mais riqueza pra quem já é rico e aprofundar mais miséria para os que continuam pobres. Essa prática é também uma novidade eterna e monótona.

Até um órgão com a denominação estúpida de “contra a seca” foi criado. E o pior: de “obras contra”… De lá pra cá, o mesmo ritual de remendos e assistencialismo. Onde o vício dessa “arrumação” encontrou agasalho no poder e nos “favorecidos”. O poder caridoso de um povo mendicante.

Não consigo ver uma ação governamental que pelo menos saia do ramerrão continuado. A transposição do São Francisco? É tão antiga e distante que mais parece piada.

Só não é uma piada, porque já derramou e pôs dinheiro público em canos e canais vazios. Essa sim, a transposição de grana do bolso do povo para a botija de empresas e empreiteiras. Tudo devidamente licitado, ao sabor da burocracia.

Vejamos alguns aspectos dessa monumental mentira. Em primeiro lugar é de se constatar o desgaste do próprio São Francisco. Nascentes agonizantes e matas mortas. Seja pela estupidez dos nativos dessas regiões, seja pela falta de fiscalização do Governo e das chamadas entidades de defesa do meio ambiente.

O Governo encastelado nos “negócios” políticos. As entidades ambientais vendendo ilusões nas salas refrigeradas e nas luzes da mídia. Muita picaretagem e pouca ação.

Outra constatação. A água que por ventura aqui chegue dessa transposição, será insuficiente para estancar esse processo perverso das relações com a seca. Fossem suficientes as águas de um rio, ao passar numa cidade ou comunidade, não haveria miséria nas cidades ribeirinhas onde passa o São Francisco. Só aí já se desmoraliza a propaganda enganosa.

Há soluções pequenas e pontuais, que mesmo não resolvendo o problema geral, podem atenuar bastante os efeitos da seca.

Vejamos uma. Os açudes e açudecos, das pequenas e médias propriedades, inclusive nas beiras das estradas, estão assoreados. Com menos da metade de sua capacidade de acúmulo. Todo ano, nesta época, eles estão secos e se oferecendo para uma solução. Qual? A dragagem.

Coisa que um pequeno trator, com uma escavadeira, aprofundará dois ou três, num dia, dependendo da distância. Refaz o porão e com o material retirado, reforça a parede. Onde se acumulava água por seis meses, passará ao dobro, com reserva para um ano. Fácil e simples. Todo ano, eu repito isso aqui.

Eterna sacanagem. Monótona patifaria. Enrugada novidade.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto publicado originalmente no Novo Jornal.


Fonte: Carlos Santos

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